terça-feira, 27 de abril de 2010

Às vezes a gente só quer trocar os sapatos...

Preciosidade

"De manhã cedo era sempre a mesma coisa renovada: acordar. O que era vagaroso, desdobrado, vasto. Vastamente ela abria os olhos.
Tinha quinze anos e não era bonita. Mas por dentro da magreza, a vastidão quase majestosa em que se movia como dentro de uma meditação. E dentro da nebulosidade algo precioso. Que não se espreguiçava, não se comprometia, não se contaminava. Que era intenso como uma jóia. Ela.
Acordava antes de todos, pois para ir à escola teria que pegar um ônibus e um bonde, o que lhe tomaria uma hora. O que lhe daria uma hora. De devaneio agudo como um crime. O vento da manhã violentando a janela e o rosto até que os lábios ficavam duros, gelados. Então ela sorria. Como se sorrir fosse em si um objetivo..."
Lispector, C.
Aqui está um fragmento de um dos contos da Clarice que mais gosto.
Segue o link do conto na íntegra para os mais interessados:
é isso!!

segunda-feira, 12 de abril de 2010

[sa.uˈda.d(ʒ)ɪ]


saudade - tema discutido em conversas de bar, encontros acadêmicos, rodas de samba, saraus, serestas. Por pessoas de todos os gêneros, todas as cores, todas as classes...

e como sou uma mera mortal, estou aqui, cheia de saudade do cheiro de casa, da roupa lavada, da pessoa amada, do "não-café" depois do almoço.

enquanto isso: fichamentos, resumos, seminários. Sandman, M. Laroca, J.L. Monteiro, A. Azevedo, E. Paratore, F. B. Carone, A.Tchekhov são as companhias da vez!

sábado, 27 de março de 2010

eu, eu mesmo e Drummond.


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se dia mais: meu amor
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficastes sozinho, a luz apagou-se.
Mas na sombra seus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer
E nada esperas de seus amigos.

Pouco importa velha a velhice, que é a velhice?
Teu ombro suporta o mundo
e ele pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as brigas dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados)eu morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mestificação.

Os Ombros Suportam o Mundo

Carlos Drummond de Andrade.

Engraçado como nos encaixamos completamente com certo autores, compositores e afins!
Drummond, nesse momento, calhou perfeitamente!

... e o calor araraquarense continua.

terça-feira, 23 de março de 2010

Desvencilhar!



E é com João Cabral de Melo Neto que faço deste espaço um grito, um murmúrio, um desabafo!
"(...) O amor roeu a minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia os lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina no largo, com os primos que tudo sabiam sobre os passarinhos, sobre mulheres, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu o meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas que eu desesperava por não saber falar delas em verso (...)".


Trecho de Os Três Mal-Amados.